Carta de um desapaixonado que encontrou um novo amor

Há quase dois anos eu venho em dúvida. Ruminando, em sérias reflexões existenciais e intensos mergulhos filosóficos. Mas a madrugada de sábado para domingo marca a minha definitiva conversão, meu batismo: eu hoje sou um fã de MotoGP em sério detrimento da F1.

O duelo entre Marc Marquez e Jorge Lorenzo durou apenas dez minutos, mas me deixou sem fôlego e em suspense como nenhuma corrida de F1 este ano foi capaz de fazer. E mais: eu simplesmente não sacrifiquei meu sono para ver a F1. Dormi, acordei na ‘madruga’ pra ver a MotoGP e finito. Ainda não vi a corrida de F1…

A verdade implícita e categórica daquela madrugada é que a F1 não me excita mais. Simples e profundamente, desapaixonei-me.

E não é apenas a dominação esmagadora de Vettel e Adrian Newey que me faz desinteressado. Nos últimos tempos tenho mais e mais respeitado a capacidade e dedicação da dupla e desprezado a incompetência de seus adversários (como da nossa McLaren, por exemplo!).

A verdade profunda é que a MotoGP é mais radical, mais perigosa, mais desafiadora e, principalmente, mais íntegra como esporte que a hoje ‘fake’ F1 dos ‘degradantes pneus Pirelli e da zona de ultrapassagem.

E não apenas isto. Tenho a leve sensação de que transpira uma mágica mais autenticamente humana na MotoGP — um duro contraste com a excessivamente corporativa, sem graça e sem alma F1.

E há, claro, o recheio que faz da MotoGP superior à F1 como a poesia é superior à prosa.

Lá há Valentino Rossi, uma lenda viva histriônica e cheia de personalidade. Há Marc Marquez pondo abaixo a hierarquia natural da categoria; Há a marrentice de Jorge Lorenzo; há a certeza de que é possível compensar a superioridade de equipamento no braço, como faz Lorenzo hoje; Há também drama e real rivalidade. Há mais pathos e perigo; Há regras técnicas e esportivas simples, claras e cristalinas; E não há esta incômoda e perene desconfiança sobre quem trapaceia no regulamento técnico.

Há plasticidade, estética e beleza na relação entre piloto e moto em ação como na F1 jamais terá e há, por fim, ultrapassagens reais e honestas como a luz do dia.

Ah, é há claro, as Paddock Girls para mim e para o Will Mesquita.

Enfim, é bem certo que F1 não sentirá a falta deste outrora headbanger, hardcore, doido varrido e dedicado fã. Enquanto eu estiver indiferente, milhares de seus novos fãs nascerão a cada ano, apaixonados pela DRS.

A todos vocês F1 neófitos ou heróis da resistência, Neos em dormência, boa sorte porque para mim, é o suficiente.

13 Comments

  1. Concordo plenamente!

    Já á algum tempo que a moto GP me chama a atenção , desde a época de Michael Doohan.
    As regras são simples , as equipes podem testar a vontade novas peças e usá-las durante a temporada.

    Os pilotos vivem em constante risco ,como na ultima corrida na malásia.

    As motos são de primeira linha ,ultrapassando os 340 km em pouco espaço, hoje a formula 1 para alcançar os 320 precisa do DRS.
    Mesmo com as equipes de fabrica com seus protótipos sofrem com suas clientes com motos tecnicamente inferiores.

    Os pilotos vão ao limite do que é normal, ao ponto de rasparem os joelhos no asfalto para conseguirem fazer as curvas, segurarem no braço ao final de uma reta a moto que chega nas freadas toda torta e derrapando de traseira pois um bom resultado lhês garante um contrato ao final da temporada.

    A f1 precisa largar o orgulho e arrogância é olhar pra fora do seu mundo que á cada dia fica menor é mais chato ,para aprender com outras categorias a melhorar não só para ela ,mas também aos olhos do publico para lhes dar um melhor show.

    • Ótimo comentário, Marlon.

      às vezes tenho a sensação de que a evolução técnica da F1, mais e mais em direção á aerodinâmica como diferencial de performance foi o que matou o show a ponto de se ter que criar subterfúgios e artificialidades para tornar a F1 novamente interessante sob o ponto de vista do ‘show’

      Ok, admito que haverá sempre essa dicotomia e contradição entre a F1 ser um esporte (cada vez mais acredito que não seja!) real e entretenimento, mas nesse ponto a MotoGP é muito mais íntegra e verdadeira — ainda que saibamos que o equipamento ainda é o grande diferencial de performance.

      Dá para ir a fundo nesse ponto, mas isso é história pra outro post, 😉

  2. Eu AMO as grid girls da MotoGP!

    Mas prefiro prosa.

    E prefiro a F1. MotoGP é legal, mas para mim é como um Churrasco, a F1 sempre vai ser a picanha, há outros cortes bons, mas Churrasco sem picanha não é Churrasco.

  3. Há pouco tempo eu discuti isso com alguns amigos no meu facebook…

    Acho a MotoGP mais humana, mais bonita e mais emocionante. Enquanto a Formula 1 só perde seus bons adjetivos a cada GP de cada temporada.

    Já até considerei organizar meus finais de semana em função do calendário da MotoGP, invés da boa e velha Formula 1. Mas até agora não consegui abandonar o meu grande amor, e acho que nunca conseguirei.

    Enfim, hoje elas coexistem em minha vida, e o que não encontro em uma, acho na outra. E estou feliz assim, pelo menos por enquanto.

  4. Então imagino que a corrida desse final de semana foi um prato cheio pra ti Becken. Bike swap, punição (bandeira preta!), redução de vantagem no campeonato…

    • Na verdade, acho que a Bridgestone e o pessoal da DORNA fizeram uma cagada monstro, nas proporções da que a FIA e a Michelin fizeram em 2006, no GP dos States.

      Óbvio que a Honda arriscou muito ao deixar o Marquez tanto tempo pendurado na janela de mudança de moto — o que inevitavelmente me fez mentalmente traçar paralelo com a cagada que a McLaren fez no GP da China de 2007 com o Lewis, deixando o moleque tanto tempo na pista.

      O problema é que uma cagada da equipe acaba pode por pressão nos ombros do moleque, que carrega um caminha nas costas pra Motegi, final de semana que vem.

      Aliás, esse GP do Japão é o grande ‘highlight’ da semana em termos de esporte a motor.

      Meu conselho: Guardem-se pra Motegi e às favas com esse GP da Índia.

  5. Esta nova rivalidade entre o Marquez e o Lorenzo tem muito de Alonso vs Hamilton. Só faltou serem da mesma equipa. Mas neste caso só super fã do Lorenzo. E espero que o Jorge consiga o titulo. Depois daquele fim de semana na Alemanha ele merece e muito o titulo.

    PS: quando vi a bandeira preta ao Marquez fiquei mesmo a espera que mostrassem na box da Honda a cara do Martin Whitmarsh

  6. Vou fazer o papel de “intruso” e colocar notícias da F1 aqui.

    Encontrei esta notícia, que é tudo o que alguns aqui do Papaya querem: Alonso e Magnussen para 2015.

    http://www.bahianoticias.com.br/esportes/noticia/28662-alonso-pode-retornar-para-a-mclaren-diz-jornal.html

  7. Não sei não amigos, acho que se a McLaren 2014 for dominadora, vcs reatam a antiga paixão sem grandes problemas 😛

  8. Pingback: Um novo amor... » Papaya Orange

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